8h15m.
Passaram quase duas horas desde que saiu de casa, andando de transporte em transporte em busca de chegar ao destino pretendido. Antes de o alcançar, encontrou um pobre sem-abrigo junto a uma das últimas paragens que percorre nos 5 dias úteis da semana. Sentado no mármore gélido que dá entrada para um dos muitos prédios em Alcântara, o senhor, com a idade a rondar os 60 anos, lê umas passagens gastas da Bíblia. Primeiro baque.
Observa o paradoxo. Questiona-se se acreditará em Deus ou se, simplesmente, a fé nunca chegou a existir na vida daquele homem.
Ele levanta-se e revista o caixote do lixo mais próximo... próxima estava também ela. Pouco mais que um metro. Pousou as pequenas folhas amareladas em cima do caixote como se de um diamante se tratasse. Afastou-se até ao caixote seguinte. Encontra um iogurte e o vazio que conserva lá dentro. Segundo baque.
Em passos lentos volta atrás para resgatar as folhas com as passagens bíblicas. Baixa-se e do chão apanha a beata ainda fumarenta. Ao seu lado, mas de costas voltadas, um outro indivíduo transporta dois caixotes cheios de pão até ao supermercado. Terceiro baque.
Ela não aguenta o formigueiro que começara a atormentá-la. Começa a agitar-se na fila enorme que entretanto se formou. Vê os carros topo de gama a passar; vê o autocarro ao fundo da rua. Hesita entre partir para a acção ou fugir dela. Sai da fila e começa a andar às voltas pelo passeio largo. Pensa na comida que tem na mala. Quer abordá-lo mas falta-lhe a coragem. “Porquê tanta gente na paragem? Seria tão mais fácil se estivessem sós... falar, tocar, reconfortar...”
Começa a irritar-se com a sua atitude. “Então é assim que pensas que o mundo muda, fugindo dos problemas? Cobardolas!” A voz interior não pára de espicaçá-la. Resolve aproximar-se, como que a ganhar balanço para o que gostava que viesse a seguir. "Tem fome?" Num sussurro (que serviu ambas as vontades - a de ser carinhosa e, simultaneamente, inaudível para os que estavam à volta) a pergunta saiu. Não havia tempo a perder. Enquanto ouvia a resposta sacou dos lanches (matinal e vespertino) que preparara em casa. Pousou as coisas ao seu lado. "Espero que goste". Perdera uma bela oportunidade para estar calada. Como não haveria de gostar, pensou ela. Desde quando é que uma pessoa esfomeada é esquisita? Desejou-lhe um bom dia com os lábios a entreabrirem-se, naquilo que queria que fosse um sorriso de esperança. As mãos tentaram tocar, num gesto aconchegante, a samarra que vestia.
Passaram quase duas horas desde que saiu de casa, andando de transporte em transporte em busca de chegar ao destino pretendido. Antes de o alcançar, encontrou um pobre sem-abrigo junto a uma das últimas paragens que percorre nos 5 dias úteis da semana. Sentado no mármore gélido que dá entrada para um dos muitos prédios em Alcântara, o senhor, com a idade a rondar os 60 anos, lê umas passagens gastas da Bíblia. Primeiro baque.
Observa o paradoxo. Questiona-se se acreditará em Deus ou se, simplesmente, a fé nunca chegou a existir na vida daquele homem.
Ele levanta-se e revista o caixote do lixo mais próximo... próxima estava também ela. Pouco mais que um metro. Pousou as pequenas folhas amareladas em cima do caixote como se de um diamante se tratasse. Afastou-se até ao caixote seguinte. Encontra um iogurte e o vazio que conserva lá dentro. Segundo baque.
Em passos lentos volta atrás para resgatar as folhas com as passagens bíblicas. Baixa-se e do chão apanha a beata ainda fumarenta. Ao seu lado, mas de costas voltadas, um outro indivíduo transporta dois caixotes cheios de pão até ao supermercado. Terceiro baque.
Ela não aguenta o formigueiro que começara a atormentá-la. Começa a agitar-se na fila enorme que entretanto se formou. Vê os carros topo de gama a passar; vê o autocarro ao fundo da rua. Hesita entre partir para a acção ou fugir dela. Sai da fila e começa a andar às voltas pelo passeio largo. Pensa na comida que tem na mala. Quer abordá-lo mas falta-lhe a coragem. “Porquê tanta gente na paragem? Seria tão mais fácil se estivessem sós... falar, tocar, reconfortar...”
Começa a irritar-se com a sua atitude. “Então é assim que pensas que o mundo muda, fugindo dos problemas? Cobardolas!” A voz interior não pára de espicaçá-la. Resolve aproximar-se, como que a ganhar balanço para o que gostava que viesse a seguir. "Tem fome?" Num sussurro (que serviu ambas as vontades - a de ser carinhosa e, simultaneamente, inaudível para os que estavam à volta) a pergunta saiu. Não havia tempo a perder. Enquanto ouvia a resposta sacou dos lanches (matinal e vespertino) que preparara em casa. Pousou as coisas ao seu lado. "Espero que goste". Perdera uma bela oportunidade para estar calada. Como não haveria de gostar, pensou ela. Desde quando é que uma pessoa esfomeada é esquisita? Desejou-lhe um bom dia com os lábios a entreabrirem-se, naquilo que queria que fosse um sorriso de esperança. As mãos tentaram tocar, num gesto aconchegante, a samarra que vestia.
Fugiu. Ainda lhe ouviu os espirros provocados pelo frio. De costas voltadas, virou a primeira esquina. Enquanto subia a calçada em direcção à próxima paragem, as lágrimas desciam. "Às vezes", a reposta inesperada. Esperava um sim ou não, mas o "às vezes" fez despertá-la para a realidade: a fome não pertence só ao dia de hoje. Ao aqui e agora. É algo que acontece várias vezes ao dia... ao final da semana é um rol de vezes. Para quem toma as refeições sempre a horas, a fome surge 4/5 vezes por dia... vem e vai, vem e vai. Para quem não tem este privilégio, a fome vem para ficar durante tempo incerto; tão incerto quanto a comida que a sacia.
Chegada ao destino sorri com mais uma contradição. Há pouco a mala estava cheia, agora que está vazia consegue facilmente retirar o telemóvel. Verifica as horas no telemóvel: meia hora atrasada. Atrasada? Não tem compromissos rígidos, o trabalho pode esperar. Também ela já estava com fome. O copo de leite há muito que se evaporou do estômago. Em menos de um minuto voltou a encher a mala com a comida que comprou.
Ao procurar uma mesa para tomar o pequeno-almoço encontrou dois panfletos: Conferência Internacional: A cidade é de tod@s – Democracia, Integração, Urbanismo; Congresso CAIS, o segundo. A ironia do destino provocou-lhe mais um sorriso.
Recordou as palavras de um professor: "Dar o que não nos faz falta não presta para nada; Dar o que nos faz falta é sempre mais complicado mas também mais necessário".
Já no local de trabalho, abre a pasta. A Ignorância, de Milan Kundera, salta à vista. Percebe a lição que a manhã lhe quis mostrar: não se trata da ignorância das letras. Resume-se à ignorância do mundo, à ignorância do outro, à ignorância de nós.
P.S. - Ela gostaria que este fosse apenas mais um capítulo de um qualquer romance, mas infelizmente, isto não é pura ficção. Acontece à nossa volta, sem avisar... basta estarmos de olhos abertos...
Chegada ao destino sorri com mais uma contradição. Há pouco a mala estava cheia, agora que está vazia consegue facilmente retirar o telemóvel. Verifica as horas no telemóvel: meia hora atrasada. Atrasada? Não tem compromissos rígidos, o trabalho pode esperar. Também ela já estava com fome. O copo de leite há muito que se evaporou do estômago. Em menos de um minuto voltou a encher a mala com a comida que comprou.
Ao procurar uma mesa para tomar o pequeno-almoço encontrou dois panfletos: Conferência Internacional: A cidade é de tod@s – Democracia, Integração, Urbanismo; Congresso CAIS, o segundo. A ironia do destino provocou-lhe mais um sorriso.
Recordou as palavras de um professor: "Dar o que não nos faz falta não presta para nada; Dar o que nos faz falta é sempre mais complicado mas também mais necessário".
Já no local de trabalho, abre a pasta. A Ignorância, de Milan Kundera, salta à vista. Percebe a lição que a manhã lhe quis mostrar: não se trata da ignorância das letras. Resume-se à ignorância do mundo, à ignorância do outro, à ignorância de nós.
P.S. - Ela gostaria que este fosse apenas mais um capítulo de um qualquer romance, mas infelizmente, isto não é pura ficção. Acontece à nossa volta, sem avisar... basta estarmos de olhos abertos...
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