23/04/2007

:: o tabu dos imigrantes ::

Por Rui Pedro Baptista
in metro
É talvez um dos locais de Lisboa onde passam todos os dias mais carros. Por ali circulam milhares de viaturas, de pessoas. Todos os dias, a cada hora. Exactamente na rotunda do Marquês de Pombal, em Lisboa, no centro da cidade, foi colado um cartaz. Daqueles grandes que tanto servem para vender sumo, como telenovelas ou detergentes. Este limita-se a dizer que "basta de imigração". A entidade responsável pela colocação é um partido, alegadamente - desculpem-me a incapacidade de catalogar as diferentes opções políticas -, de extrema-direita, ou nacionalista. E por isso mesmo logo se levantou um coro de protestos. Ora quem colocou ali aquela mensagem, está no seu direito. Assim como estão os que não concordam com essa mesma ideia. É o meu caso.
Sempre que dou de caras com uma notícias sobre o aumento do desemprego, não me ocorre que a culpa seja dos ucranianos, angolanos, brasileiros ou espanhóis que estão cá a "roubar-me" o emprego. Da mesma forma que se um dia alguma empresa me fizer um convite para ir trabalhar para Londres ou Paris, em condições mais vantajosas, não vou pedir desculpa aos meus colegas ingleses ou franceses pela opção que fiz. O mercado de trabalho é global. As empresas são cada vez mais globais. Esta é a razão profissional. Racional. Empresarial, se preferir.
Depois existem as outras razões. Os outros motivos. Para além do sotaque ou da cor de pele, mais clara ou mais escura, nunca encontrei nenhuma diferença, por exemplo, entre um empregado de mesa, um médico ou um condutor de táxi, de origem africana, brasileira, cubana, espanhola ou filandesa. Apenas acontece que às vezes sou melhor servido, outras nem tanto. Uns profissionais são mais simpáticos, outros nem por isso. Mas todos são pessoas. Presumo que trabalham oique precisam de dinheiro. Acreditam que estão em Portugal porque, eventualmente, têm melhores condições. Apenas isso. São iguais em tudo a mim próprio. Por isso é-me absolutamente indiferente que sejam deste ou daquele país, como não me importa que sejam deste ou daquele clube ou partido político. Nacionalidades não definem profissionalismo.
Um país como Portugal que, neste momento, entre primeiras e segundas gerações de emigrantes, deve ter mais de quatro ou cinco milhões de nacionais fora de portas, deveria ter, pelo menos por isso, algum cuidado quando pondera fechar as portas aos imigrantes. É uma questão de bom senso. Como o é considerar cada pessoa como um ser humano com deveres mas também direitos, independentemente do local onde mora. Onde tenta ganhar a vida.

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