in Diário de Notícias
Cada vez há mais estrangeiros a pedir a nacionalidade portuguesa. Brancos, pretos, amarelos, castanhos, entre o loiro e o germânico, entre o glabro e o felpudo, eis uma sulevação de cores e de fácies; um bulício de idiomas que noivam o nosso edioma para exprimir a dor e o riso, a infância e a paixão, a lembrança e o sonho. Tocaram no batente da casa comum à procura, afinal, do que comum é ao homem: um pouco de felicidade. E deitam-se no mesmo leito onde, outrora, suecos e visigodos, fenícios e romanos, àrabes e celtas procriaram os miscigenados que todos nós somos.
A sintaxe da nossa ascendência possui qualquer coisa de genital. Não foi, somente, a delimitação do território que construiu uma pátria e moldou uma língua. Também não foi, apenas, o ferro do montante que marcou a identidade. O que definiu o nosso destino foi a argila de um aparticular nativismo, nascido na cama do amor, no suor dos corpos, na festa do sexo. Nascemos do prazer. Saimos portugueses desse almofariz de raças, no entreacto de guerras e de confrontos políticos.
A negação da nossa mestiçagem configurará o assassínio da nossa entidade, e atribui a quem a pratica o estofo de um canalha. Assim como o ódio exposto, arrogantemente, em placard, demonstra algo de doentio. Somos uma nação de heterónimos, cheios de coragens e superstições. Um pisar de caminhos antigos puxa-nos as pernas para o imponderável. Fluxos de muitos sangues fazem pulsar o modo de como aqui estamos.
Há uma relatório, "Inter Lusitanos", endereçado a Nero por Políbio Garbus, poeta e procônsul romano, o qual nos retrata como gente estranha, imputando fraqueza de espírito a uma nossa particularidade: a indiferenciação fundamental dos indivíduos. E adianta: o desdém pelas regras criou nos lusitanos uma relativa igualdade de raças. ara um patrício, educado numa sociedade extremamente hierarquizada, este modelo estava desprovido de lógica social, política e filosófica.
As coisas prosseguiram séculos atrás de séculos. Quando D. Manuel I manda proceder à matança de judeus, num domingo de Pascoela, a 19 de Abril de 1506, liquida a cultura dos afectos e de livre partilha dos saberes até então simplificada no reconhecimento da alteridade.
Mas a História não pára o tempo que dentro de si acalenta. Foi-nos legado um bragal aberto ao mundo, entre intimidades, solidões, angústias e despedidas. Eis porque precisamos de todos os que nos procuram, porque sempre procurámos todos aqueles de qe precisamos.
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