15/05/2007

Fome

Sinto fome.
Ás vezes queria não ter sentidos... mas penso que esse desejo não consta da lista concedida pela fada madrinha.
Encolho-me para espantar a dor. Já sinto a barriga colada às costas. Ugh! E quando não penso em mais nada do que aqueles bolos da loja do senhor Zé, aparecem uns tipos, vindos do nada, a andar ao meu lado. Ena, são muitos.
"É amigo, pariu a galela foi?"
"Ah, você tem piada! 'tamos a marchar pela fome."
"Curioso"- pensei - parece que de repente ficou muita gente com fome. "Atão e o que vão fazer para matar a fome?"
"Oh amigo não somos nós que temos fome. Nós só queremos ajudar os outros."
"Mas querem ajudar todos?"
"Hoje é p'ra ajudar a Tanzânia"
Os meus pensamentos falam alto e acabo por dizer: "Epá essa senhora tem sorte".
"A Tanzânia?", "Ah ah ah, não é uma senhora é um país"
"Ah... nunca ouvi falar. Onde fica?"
"Fica lá pó estrangeiro. Bom amigo, gostei deste bocadinho mas vou começar a acelerar o passo. Até à vista."
Agora que o tipo me deixou volto a sentir o estomâgo a exigir uma comidinha. Ai... e agora parece que a fome voltou ainda mais esfomeada. Olho à volta. Ah, a mercearia! O senhor Zé está lá dentro. É boa pessoa mas da última vez ficou bravo por me ver a surripiar os bolinhos.
Bom, desta vez tenho de ser mais discreto.
Os tipos continuam a marchar pela fome...
Também eu vou marchar pela fome... ó se vou! Assim que tiver algo apetitoso nos bolsos, nem vou marchar, vou correr!

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