14/07/2007

Um olhar sem visão

Ainda estou a tremer. Nem sei se foi de correr ou da insegurança que senti.
Hoje decidi sair na estação de Campolide... pensei que o autocarro já estaria mais vazio por causa das férias ecolares e não me enganei.
Mal saí da estação encontrei uma senhora cega, completamente perdida entre a paragem dos autocarros e a estação de comboios. Perguntei-lhe se queria ajuda, ao que ela me respondeu: "vou para a estação"; perguntei-lhe qual a direcção. "Setúbal" foi a resposta.
Vi o comboio a chegar naquele instante. "Já está perdido", pensei, enquanto exteriormente continuei a tentar fazer alguma coisa de útil. Enquanto a guiava, fazia sinais ao maquinista e ao segurança para aguardarem.
Sempre alertando-a dos degraus e espaços vazios onde poderia facilmente cair, a senhora conseguiu, finalmente, embarcar rumo a Setúbal. Ufa!
Agradeceu-me e eu redistribui o agradecimento por aqueles que esperaram por ela. Só tive tempo de dizer "bom dia" antes de as portas se chegarem.
Volto a correr para o autocarro. E agora que me aconcheguei no banco, não posso deixar de pensar na vida desta senhora que é cega... uma vida que não conheço mas tento imaginar...


Sentirá medo e insegurança como eu penso que sentiria se estivesse na pele dela?
O que é para ela a beleza? E a fealdade?
E a cor azul, do mar e do céu?

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