15/12/2007

Hipocrisia Natalícia vs Amor Natalício

Agora que a noite de Natal chega ao fim sinto um aperto no coração. Tenho sempre vontade de chorar nestes dias e penso na infeliz coincidência: os anos passam, a revolta, a mágoa, e impotência permanecem. Só a insatisfação aumenta à medida que os sonhos diminuem. É uma relação proporcionalmente inversa que me corrói a esperança num amanhã melhor.
O que mais me dói é ver os olhares tristes enquanto regresso a casa, um sinal de que os valores transmitidos no Natal não chegam a todos. Família, união, sentimento de pertença, carinho e, na nossa sociedade capitalista, presentes, para alguns são só palavras que aprendemos a escrever e a ler mas cujo significado não compreendem verdadeiramente.
Esta iliteracia não é própria apenas dos tempos modernos. Penso que terá existido desde sempre e o que mais me assusta é pensar que poderá continuar a existir... para sempre.

Para tentar devolver um pouco de paz à alma, penso nas pessoas boas que existem e que, espelhadas pelos quatro cantos da Terra, procuram, através das suas vidas, contribuir para um sorriso (a mais elementar expressão do bem) e um olhar iluminado daqueles que pouco ou nada têm.
Nesta época festiva, mas em que poucos sabem porque festejam, somos bombardeados de hipocrisia natalícia. São os presentes, os manjares próprios da época, os enfeites, o pai natal, o presépio, as últimas compras e receitas para a ceia. Tudo é abordado e, de certa forma, espremido até já não sobrar mais nada. Quer dizer, mais nada que se veja, pois "o essencial é invisível aos olhos", já dizia Antoine de Saint Exupéry.
Questiono-me se as pessoas não se interrogarão... interrogo-me se as pessoas não se questionarão sobre o que está para além do que se pode ver, ouvir, cheirar, tocar ou saborear. Mas na minha cabeça apenas tenho um ponto de interrogação, a resposta essa permanece na mente de cada um...
Jesus Cristo, nesta quadra, é apenas o menino Jesus, uma peça do puzzle que é o presépio. E até o Pai Natal, cuja lenda advém do séc. IV d. C., assume um maior protagonismo.
Acredito que para alguns - poucos - o nascimento daquele que é considerado (dentro de algumas sociedades) o redentor seja celebrado com o máximo de fé. Mas também acredito que para outros - muitos - seja apenas uma desculpa "esfarrapada" (tal não é o uso!) para mais umas festinhas, umas excentricidades e, claro, como não podia deixar de ser, é igualmente o momento de relembrar os pobres, fracos e oprimidos que ficaram esquecidos desde o último Natal!
Ai Pai Natal, tira-me deste filme!!
Apesar de encarar Jesus Cristo como um filho de Deus como todos nós, sem maior ou menor privilégio, foi, sem dúvida, um grande exemplo para a humanidade, tal como o foi Gandhi, Buda, Madre Teresa de Calcutá...
Para mim, Jesus Cristo encontra-se no mesmo patamar humano e divino que todos nós, mas não se pode negar a grandiosidade das suas acções que ainda hoje são reconhecidas mundialmente.
Ainda assim, crendo em Jesus como um ser igual a muitos outros benfeitores, acredito que lhe presto uma maior homenagem e admiração do que uma grande fatia daqueles que se auto-intitulam de cristãos.

"Perdoai-lhes Senhor, eles não sabem o que dizem"
O Natal, à minha vista, é algo imposto pela sociedade. Todos os dias são importantes, não existem dias mais ou menos especiais marcados no calendário, todos são iguais: todos são unicos! Existirão, com certeza, alguns que pelas alegrias, surpresas e diálogos, momentos enfim, serão mais facilmente recordados. Mas esses não estão marcados antecipadamente...
E porque "o Natal é sempre que o homem quiser", peço ao Pai Natal que este ano traga na sua sacola muita paz e sossego para os corpos e as almas. Muita entreajuda, simpatia no trato, muito amor e, sobretudo, muita saúde. Para finalizar, peço apenas o favor de distribuir estes "presentinhos" pelos 365 dias do ano (e não apenas nesta quadra festiva).
Obrigada Senhor, bem-haja!
Ecos by Ana
2006

Cultivo alegrias num jardim




«Foram-se os amores que tive


ou me tiveram:


partiram


num cortejo silencioso e iluminado.


O tempo ensinou-me


a não acreditar de mais na morte


nem desistir da vida: cultivo


alegrias num jardim


onde estamos eu, os sonhos idos,


os velhos amores e seus segredos.


E a esperança - que rebrilha como pedrinhas de cor entre as raízes.»




Secreta Mirada, 1997


Cit. por Lya Luft, Perdas e Ganhos

Para lá d'O FIO DO HORIZONTE

Nestes últimos dias, prevendo os ventos da mudança, decidi fazer uma reorganização no meu baú de memórias. Não queria estar pesada quando o vento soprasse... só a leveza me permite voar livremente...
Assim, comecei pelo mais recente e fui andando para trás... escrevi, remoi e encontrei momentos, pessoas, alegrias, perdidas entre a memória e os registos escritos.
Voltei-me, depois, para a caixinha dos recortes. Foi com espanto que revi pequenos textos que me acompanham há uns longos anos e outros que, apesar de serem mais actuais, não me deixam de surpreender, pelo sentido que tomam quando os lemos uns meses mais tarde.
Peguei num dos recortes: era umas das crónicas d' O Fio do Horizonte que Eduardo Prado Coelho escrevia semanalmente no Público, datado de 11 de Janeiro de 2007.
Aparentemente, o texto não continha nada de especial (perguntei-me até o porquê de o ter guardado)... e não fosse o facto de ter sido escrito 7 meses antes da sua própria morte, todas aquelas palavras teriam um sentido diferente e, de certa forma, menor.
Passo a transcrever:

ZÉ LOUREIRO
«Conheci o Zé Loureiro já há muitos anos, nem eu sei quantos, mas lembro-me de que entrei um dia no gabinete da sua editora, A Regra do Jogo, ali para as bandas da Sousa Martins, perto da Fontes Pereira de Melo (aqui não sei se tudo isto é imaginação). O que me interessa dizer é que alguém que pretende publicar Llansol ou Rui Nunes (nessa altura quase desconhecidos) tem certamente um gosto de invulgar qualidade.
Depois, a vida foi-nos separando, levando a reencontros e, ás vezes, a separar-nos nos próprios reencontros.
O que aconteceu agora deixou-nos a todos em estado de choque. O Zé Loureiro (o seu nome por inteiro é José Leal Loureiro) teve a melhor das mortes: deitou-se para dormir a sesta (estava nessa altura no Porto) e não chegou a acordar.
Qualquer um de nós sonha com uma morte assim: sem violência, deslizando suavamente para o outro lado da vida, morrendo em sonhos e verdades. Só que há nisto uma estranha assimetria. O que para os outros que morrem é o melhor, para os que ficam a situação é horrível. Nada lhes faria prever o que viria a acontecer. Nada, nunca.
A verdade é que viver não é nunca fácil. Para o Zé Loureiro, houve momentos muito difíceis. Não sei as coisas em pormenor, mas lembro-me do Zé Loureiro a secretariar a UEP, sem grande convicção. A vida tinha-o tornado algo céptico e desencantado. Mas toda a sua vida ele teve a mais bela das qualidades: gostava imenso dos livros e gostava de os fazer chegar aos outros e a, assim, partilhá-los.
Que se quer mais? Adeus Zé. Boa viagem e leva livros para ela.»
A morte de Eduardo Prado Coelho não foi tão serena, foi até súbita, e a crónica aqui transcrita poderia já ser o remoer da sua dor por se saber no fim da linha da vida.
Foi com alegria que li os testemunhos que falavam tão bem da pessoa que Prado Coelho foi ao longo dos tempos.
Para o fundador do Público, Vicente Jorge Silva, Prado Coelho era «um consumidor cultural insaciável» que «tinha uma sede imensa de saber».
«Gostava de apreciar tudo o que andava no ar», considerou o professor Arnaldo Saraiva acrescentando que Prado coelho revelava «uma imagem forte da sua ambição de entender a vida e de entender os jogos de poder, mas também os mistérios da criação».
Acho que era por estas "sedes" que a minha linha da vida, curta e fraca, se cruzava com a dele, longa e forte , mesmo em meros recortes de jornais.
Foi um belo faquir nos anos que por aqui passou, e eu, que com o medo das alturas ainda mal consigo aguentar-me no arame, não deixo de sentir uma subtil admiração, mesmo já estando para lá d'O Fio do Horizonte.

14/12/2007

Ensina-me a empreender um novo início...


«Ensina-me a empreender um novo início, a destruir os esquecimentos de ontem, a deixar de dizer "não posso" quando posso, "não sou", quando sou, "estou bloqueada" quando estou totalmente livre.»

Rabbi Nachman di Braslav

10/12/2007

Vida = Viagem de Comboio

Algum tempo atrás, li um livro que comparava a vida com uma viagem de comboio. Uma leitura extremamente interessante, quando e bem interpretada...
A vida não é mais do que uma viagem de comboio: repleta de embarques e desembarques, salpicado por acidentes, surpresas agradáveis em algumas estações e profundas tristezas noutras. Ao nascer, subimos para o comboio e encontramo-nos com algumas pessoas que acreditamos que estarão sempre connosco nesta viagem: os nossos pais. Lamentalvelmente, a verdade é outra. Eles sairão nalguma estação, deixando-nos orfãos do seu carinho, amizade e da sua companhia insubstituível. Apesar disto, nada impede que entrem outras pessoas que serão muito especiais para nós. Chegam os nossos irmãos, amigos e esses maravilhosos amores. De entre as pessoas que apanham este comboio, também haverá quem o faça como um simples passeio. Outros, so encontrarão tristeza nessa viagem... E outros também que circulando pelo comboio, estarão sempre prontos para ajudar quem precisa. Muitos, quando descem do comboio, deixam uma permanente saudade... Outros passam tão despercebidos que nem reparamos que desocuparam o lugar.
Às vezes, é curioso constatar que alguns passageiros, que nos são muito queridos, se instalam noutras carruagens, diferentes da nossa. Assim, temos de fazer o trajecto separados deles. Mas, nada nos impede que, durante a viagem, percorramos a nossa carruagem com alguma dificuldade e cheguemos até eles... Mas, lamentavelmente, ja não nos podemos sentar ao seu lado, pois estará outra pessoa a ocupar o lugar. Não importa, a viagem faz-se deste modo: cheio de desafios, sonhos, fantasias, esperas e despedidas... mas nunca de retornos.
Então façamos esta viagem da melhor maneira possivel.. Tratemos de nos relacionar bem com todos os passageiros, procurando em cada um, o melhor deles. Recordemos sempre que em algum ponto do trajecto, eles poderão hesitar ou vacilar e, provavelmente, vamos precisar de os entender...Como nós tambem vacilamos muitas vezes, sempre haverá alguém que nos compreenda. No fim, o grande mistério é que nunca saberemos em que estação vamos sair, nem, muito menos, onde sairão os nossos companheiros, nem sequer, aquele que está sentado ao nosso lado.
Fico a pensar se, quando sair do comboio, sentirei nostalgia... acredito que sim. Separar-me de alguns amigos com quem fiz a viagem será doloroso. Mas agarro-me à esperança de que, em algum momento, chegarei à estação principal e terei a grande emoção de vê-los chegar com uma bagagem que não tinham quando embarcaram. O que me fará feliz, será pensar que colaborei para que a sua bagagem crescesse e se tornasse valiosa. Meus amigos, façamos com que a nossa estadia neste comboio seja tranquila e que tenha valido a pena. Esforcemo-nos para que, quando chegue o momento de desembarcar, o nosso lugar vazio deixe saudades e umas lindas recordações, para todos os que continuam a viagem.
Para vocês que fazem parte do meu comboio, desejo-lhes uma... VIAGEM FELIZ!
in, Alguém, Algures, Algum dia [título ficcionado, claro está! :) ]

05/12/2007

Procura = Encontro


- Mi corazón tiene miedo de sufrir - dijo el muchacho al Alquimista, una noche en que miraban al cielo sin luna.
- Explícale que el miedo a sufrir es peor que el proprio sufrimiento. Y que ningún corazón jamás sufrió cuando fue en busca de sus sueños, porque cada momento de búsqueda es un momento de búsqueda es un encuentro...








in Alquimista

02/12/2007

Se conseguir provar que estou enganada, avise sff :D

Não acredito, e acho que nunca acreditarei, que o "amor para toda a vida" possa encaixar-se na minha personalidade e na minha forma de ver o mundo... mas todos os dias peço que me mostrem o quanto posso estar enganada.

Ecos by Ana

01/12/2007

A criança que há em mim

Existem momentos na vida em que é preciso afugentar o complexo de Peter Pan e passar à fase adulta. Aprecio tanto a espontaneidade, o constante fervilhar de sonhos, a inconsciência das crianças, que a simples ideia me assusta. Às vezes, olho para as pessoas mais velhas e penso: uma criança ainda não sabe o que é ser adulto, mas um adulto já foi criança, adolescente, jovem adulto... e, no entanto, parece que o esqueceu.

Dias atrás, acompanhei uma amiga até ao seu local trabalho e no caminho ia observando que por detrás do fato e da maquilhagem estava a mesma amiga de sempre (doce, generosa, paciente, atenta ao outro), mas o escudo montado para esconder a ansiedade do primeiro dia tornava-a mais fria à vista. Quando a cumprimentei na despedida disse-lhe simplesmente: "Nunca deixes de sorrir".
A Rita sorriu e o escudo caiu.

Venha a fase adulta mas nunca morra a criança que há em mim! :o)