Nestes últimos dias, prevendo os ventos da mudança, decidi fazer uma reorganização no meu baú de memórias. Não queria estar pesada quando o vento soprasse... só a leveza me permite voar livremente...
Assim, comecei pelo mais recente e fui andando para trás... escrevi, remoi e encontrei momentos, pessoas, alegrias, perdidas entre a memória e os registos escritos.
Voltei-me, depois, para a caixinha dos recortes. Foi com espanto que revi pequenos textos que me acompanham há uns longos anos e outros que, apesar de serem mais actuais, não me deixam de surpreender, pelo sentido que tomam quando os lemos uns meses mais tarde.
Peguei num dos recortes: era umas das crónicas d' O Fio do Horizonte que Eduardo Prado Coelho escrevia semanalmente no Público, datado de 11 de Janeiro de 2007.
Aparentemente, o texto não continha nada de especial (perguntei-me até o porquê de o ter guardado)... e não fosse o facto de ter sido escrito 7 meses antes da sua própria morte, todas aquelas palavras teriam um sentido diferente e, de certa forma, menor. Passo a transcrever:
ZÉ LOUREIRO
«Conheci o Zé Loureiro já há muitos anos, nem eu sei quantos, mas lembro-me de que entrei um dia no gabinete da sua editora, A Regra do Jogo, ali para as bandas da Sousa Martins, perto da Fontes Pereira de Melo (aqui não sei se tudo isto é imaginação). O que me interessa dizer é que alguém que pretende publicar Llansol ou Rui Nunes (nessa altura quase desconhecidos) tem certamente um gosto de invulgar qualidade.
Depois, a vida foi-nos separando, levando a reencontros e, ás vezes, a separar-nos nos próprios reencontros.
O que aconteceu agora deixou-nos a todos em estado de choque. O Zé Loureiro (o seu nome por inteiro é José Leal Loureiro) teve a melhor das mortes: deitou-se para dormir a sesta (estava nessa altura no Porto) e não chegou a acordar.
Qualquer um de nós sonha com uma morte assim: sem violência, deslizando suavamente para o outro lado da vida, morrendo em sonhos e verdades. Só que há nisto uma estranha assimetria. O que para os outros que morrem é o melhor, para os que ficam a situação é horrível. Nada lhes faria prever o que viria a acontecer. Nada, nunca.
A verdade é que viver não é nunca fácil. Para o Zé Loureiro, houve momentos muito difíceis. Não sei as coisas em pormenor, mas lembro-me do Zé Loureiro a secretariar a UEP, sem grande convicção. A vida tinha-o tornado algo céptico e desencantado. Mas toda a sua vida ele teve a mais bela das qualidades: gostava imenso dos livros e gostava de os fazer chegar aos outros e a, assim, partilhá-los.
Que se quer mais? Adeus Zé. Boa viagem e leva livros para ela.»
A morte de Eduardo Prado Coelho não foi tão serena, foi até súbita, e a crónica aqui transcrita poderia já ser o remoer da sua dor por se saber no fim da linha da vida.
Foi com alegria que li os testemunhos que falavam tão bem da pessoa que Prado Coelho foi ao longo dos tempos.
Para o fundador do Público, Vicente Jorge Silva, Prado Coelho era «um consumidor cultural insaciável» que «tinha uma sede imensa de saber».
«Gostava de apreciar tudo o que andava no ar», considerou o professor Arnaldo Saraiva acrescentando que Prado coelho revelava «uma imagem forte da sua ambição de entender a vida e de entender os jogos de poder, mas também os mistérios da criação».
«Gostava de apreciar tudo o que andava no ar», considerou o professor Arnaldo Saraiva acrescentando que Prado coelho revelava «uma imagem forte da sua ambição de entender a vida e de entender os jogos de poder, mas também os mistérios da criação».
Acho que era por estas "sedes" que a minha linha da vida, curta e fraca, se cruzava com a dele, longa e forte , mesmo em meros recortes de jornais.
Foi um belo faquir nos anos que por aqui passou, e eu, que com o medo das alturas ainda mal consigo aguentar-me no arame, não deixo de sentir uma subtil admiração, mesmo já estando para lá d'O Fio do Horizonte.
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